Existem tantos lugares à espera de serem conhecidos, lugares esses que nos acabam por surpreender e que acabamos por levar connosco para sempre, lugares que nos marcam de uma forma da qual não estávamos à espera.
Hoje venho falar-vos de uma etapa da minha vida em que vivi a trezentos e muitos quilómetros de tudo a que estava habituada, da minha família, dos meus amigos, dos meus patudos, dos meus sítios. Sem nada o fazer prever, larguei tudo e fui em busca de um novo caminho, uma nova cidade. Falo-vos da cidade neve, a porta da Serra da Estrela, a Covilhã.
Foi em 2015, com 19 anos ainda, que me lancei na maior aventura da minha vida até agora, tomando a decisão de ir estudar para a Covilhã com o objetivo de ir iniciando o meu percurso académico enquanto estudava para obter aprovação a uma disciplina do secundário e estudava para as provas de ingresso que queria. Tinha pensado no assunto e não me apetecia parar um ano por uma disciplina, então procurei cursos, procurei sítios e foi quando do nada disse aos meus pais "Vou para a Covilhã". Ficaram surpresos, com receio por ser tão longe, mas apoiaram-me em tudo.
Em Setembro lá estava eu, no terminal rodoviário, com receio, mas de alma e malas prontas para as próximas cinco horas de autocarro que me esperavam. Já tinha ido lá, quando fui fazer a matrícula e arranjar casa, mas desta vez sabia que ia para ficar mais do que um dia, mais do que uma semana.
E assim cheguei à Covilhã. Não ia sozinha, levei comigo uma cara conhecida, pois tinha-lhe lançado o desafio e ela arriscou. No entanto, ao fim de três semanas a minha companhia desistiu, fiquei ali sozinha e confesso-vos que me senti perdida num mundo ainda bastante desconhecido para mim.
Sem poder ir a casa todos os fins de semana - ficava caro, então ia de duas em duas ou de três em três semanas -, sem poder ver os meus, sem poder matar saudades, fui a baixo e chorava muitas vezes baixinho no meu quarto. Foi também nessa altura que a minha relação foi posta em causa, mil e um testes, mil e uma histórias, mil e uma coisas que nos fizeram duvidar de nós e do que tínhamos. Via tudo a tremer à minha volta e toda a estrada eram buracos. E foi então que o meu avô faleceu. Tudo parecia piorar e cada dia era pior do que outro, sentia-me tão infeliz.
Embora fosse às aulas, fosse conhecendo e fazendo alguns amigos, era pouco, pois acabava por me deixar ficar por casa, presa na minha dor. Os meus dias resumiam-se a aulas e casa, deixava-me ficar na cama a ver um filme ou outro ou simplesmente a olhar para o teto, cancelava cafés e passeios. Aconteceu tudo junto e eu sentia-me frágil, aquele primeiro semestre levou-me a um completo estado de exaustão, senti-me sozinha, desconhecida, perdida, infeliz e com vontade de voltar para casa. Mas não o fiz.
Embora fosse às aulas, fosse conhecendo e fazendo alguns amigos, era pouco, pois acabava por me deixar ficar por casa, presa na minha dor. Os meus dias resumiam-se a aulas e casa, deixava-me ficar na cama a ver um filme ou outro ou simplesmente a olhar para o teto, cancelava cafés e passeios. Aconteceu tudo junto e eu sentia-me frágil, aquele primeiro semestre levou-me a um completo estado de exaustão, senti-me sozinha, desconhecida, perdida, infeliz e com vontade de voltar para casa. Mas não o fiz.
A determinada altura percebi que se calhar tinha de lutar um bocadinho por mim, que poderia fazer daquela uma boa experiência, largar as desconfianças de mim e dos outros, e lutar antes que tudo se fosse. Sempre fui divertida, confiante, sociável e aquela? Aquela não era eu. Percebi que às vezes temos mesmo de nos perder e que é nessas perdas de nós mesmos que percebemos o que queremos e o que não queremos, que crescemos e aprendemos que é necessário resgatar a pessoa que éramos ou que queremos ser. E assim, levantei-me e não só me encontrei, como me melhorei.
Naquele segundo semestre fui feliz, conheci mais e melhor as pessoas, saí, conheci sítios e passeei. Tudo com o objetivo de fazer daquela uma boa aventura. E depois de tantas lágrimas, só não fiquei por lá porque embora o curso fosse muito interessante, eu queria uma coisa mais prática.
Em Maio de 2016 despedi-me e foi nesse último dia, naquele passeio, por entre abraços e algumas lágrimas que percebi que apesar de todas as dificuldades que encontrei durante aquele ano, iria ter mais saudades daquele lugar do que alguma vez pensei, percebi que tenho lá pessoas que guardo comigo e sei que vou guardar para a vida, pessoas que souberam como me fazer sentir em casa e que foram um porto seguro nos dias mais tristes. Percebi que aquela cidade deu-me muito mais do que eu pedi e do que eu esperava, percebi que não foi só uma boa aventura, foi uma das maiores e melhores experiências da minha vida e aquelas aprendizagens eram necessárias. E concluí que 2015\2016 tiraram mas também me deram.
Já lá voltei e sinto-me em paz, reconheço as ruas e sou feliz ao pé daquelas minhas pessoas, tenho-as sempre no meu coração e falamos sempre que é possível - é tão bom quando nos marcam e nós também marcamos, quando as coisas não mudam mesmo que a distância seja grande. Não vejo a hora de lá voltar.
Hoje guardo esta cidade num cantinho muito especial, tenho as melhores fotografias e tão boas recordações, a Covilhã é uma cidade maravilhosa, transborda arte e amor pelas ruas, é quase impossível não nos apaixonarmos. E foi lá que limei algumas arestas, arestas essas que me tornaram numa melhor pessoa e muito mais perto da mulher que quero ser. Há lugares que nos marcam tanto, pelo bom, pelo mau, de tudo um pouco. A Covilhã é uma cidade intensa, que me faz sentir mil e uma coisas. Voltarei, sempre que me for possível.
A Covilhã é um lugar simplesmente maravilhoso e com uma atmosfera diferente para o melhor :) Já visitei várias vezes e descobri sempre algo diferente.
ResponderEliminarQue percurso tão difícil esse que tiveste e tão cheio de coisas para te deitar a baixo... Mas fico tão feliz por ti pelo que conseguiste superar! Ainda bem que descobriste as tuas forças e que cresceste com a experiência de um modo que talvez de outra forma não o fizesse :)
Beijinhos
Há lugares que ajudam a contar a nossa história, por tudo aquilo que nos acrescentam.
ResponderEliminarNão passei pela experiência de estudar longe de casa, mas convivi com várias pessoas nessa situação. E, de facto, as saudades adquirem proporções difíceis de definir, porque não as podemos atenuar quando queremos. Por outro lado, acredito que são estas fases que nos fazem amadurecer.
«Percebi que às vezes temos mesmo de nos perder e que é nessas perdas de nós mesmos que percebemos o que queremos e o que não queremos, que crescemos...», não podia estar mais de acordo, minha querida. Precisamos mesmo de sair da nossa zona de conforto, de sermos postos à prova. Claro que nem sempre é fácil gerir tudo, mas, com tempo, as feridas saram e vemos tudo o que vivemos de maravilhoso.
Obrigada por partilhares connosco este texto tão inspirador!
r: Oh, nem tenho palavras para te agradecer por isso. Fico de coração cheio ao ler essas palavras *.*
Obrigada por considerares participar (se precisares de mais tempo, podes enviar até dia 8)
Aconselho, minha querida, é um conceito diferente, mas muito engraçado. Se vires, espero que gostes :)
1986 é a série de Nuno Markl :D
Que historia tão bonita! Quem diria que uma viagem supostamente difícil se iria tornar em uma experiência tão positiva!!! Ás vezes o segredo é mesmo encarar as coisas de forma positiva e aproveitar o que temos no "agora". Beijinho ❤
ResponderEliminarr: Imagino *-* sim, por vezes parece surreal a dimensão que um lugar assume no nosso coração.
ResponderEliminarNa altura até podemos nem perceber, mas quando fazemos essa análise compreendemos o quanto crescemos e o quanto mudamos, maioritariamente, para melhor.
Isso é maravilhoso, minha querida!
Nada que agradecer <3
P.S. A Saga de Gabriel distancia-se bastante d' As Cinquenta Sombras de Grey. Partilham o mesmo género literário e reconhecemos muitas características comuns às personagens, mas o caminho que as histórias seguem acaba por ser diferente. E a própria linguagem provoca isso
ResponderEliminarr: No fundo, é um filme com várias pontas soltas, que se unem de uma forma muito equilibrada e natural :)
ResponderEliminarQuero muito ver "Três Cartazes à beira da estrada", porque a história deixou-me bastante curiosa e só tenho lido críticas ótimas!