Na altura do meu aniversário, quando respondi a este Q&A, uma das perguntas que me fizeram foi "qual a palavra que mais te marcou durante a tua vida?", pensei e demorei algum tempo a escolher, mas sem dúvida que a palavra que mais me marca é Saudade.
Desde que nasci o meu pai esteve sempre fora do país, não me lembro de passar o Natal com ele, passei dois, mas era tão pequenina que as memórias não existem e as que existem são com o auxílio de fotografias. Desde sempre estou habituada às chegadas, carregadas de sentimento, chocolates e abraços, mas depois chega a hora da despedida, das lágrimas e de mais uma porrada de meses longe dele.
Mesmo estando habituada a esta ausência, a saudade nunca desaparece e a despedida nunca custa menos, afinal é o meu pai e é uma das pessoas a quem devo a minha vida. Sei que é para nos dar sempre o melhor, sei que é o maior esforço da vida dele, sei o quanto lhe dói passar nove meses num país que não é o dele, longe dos dele. Mas também sei que seria melhor ter menos um bocadinho e tê-lo sempre cá, já lhe disse. Não pensem que sou ingrata, dou-lhe todo o valor e mais algum e é por lhe dar tanto valor que me pergunto se não era preferível tê-lo cá e vivermos com menos um pouco.
Até aos meus quinze anos, passávamos o Verão inteirinho lá onde ele está, mas agora é mais complicado. Por isso, morro de saudades o tempo todo. Mesmo das discussões infinitas, sim, porque eu e o meu pai somos tão mas tão parecidos que estamos sempre a teimar um com o outro. Como ambos somos a teimosia em pessoa é um tempo indeterminado até que um de nós ceda, mas lá tem de ser.
Sempre acompanhei com ele para todo o lado, ainda me lembro de irmos de mota - naquelas super antigas, que fazem imenso barulho -, ele dizia que ia a qualquer sítio e eu levantava-me e lá ia, agarrada a ele e a sentir o vento - adorava.
Tenho muitas memórias de brincadeiras, de passeios, dos piqueniques, sei que apesar desta distância tive uma infância feliz e tenho uma relação próxima com ele. Aliás, a primeira palavra que eu disse foi papá e ele não estava cá, a minha mãe ia-me mostrando uma foto dele todos os dias e dizia que era o pai, quando ele veio não estranhei nada e chamei-lhe logo papá.
Partilhei com vocês a chegada dele, mas já voltou a ir. Faltam nove meses para o ver novamente, ou se tudo correr bem, este ano no Verão vou tentar visitá-lo. E querem saber uma coisa? Já tenho saudades.






