Esta é uma série que dispensa apresentações, visto que já meio mundo a
viu ou ouviu falar. Normalmente sou do contra e só começo a ver séries muito
faladas quando a loucura acalma e já não se ouve falar tanto – o que não
aconteceu com La Casa de Papel, visto que não consegui resistir a todo o
alarido montado à volta daquela que era a série do momento. E ainda bem.
Vi-a em março, em apenas quatro dias, mas só agora tive tempo para vos trazer uma
opinião mais completa. Os que viram perceberão aquilo que vou dizer, aos que
não viram espero convencer-vos.
La Casa de Papel é muito mais do que um simples assalto e é por isso que nos prende do início ao fim. Leva-nos a adorar oito assaltantes que se fecham na Casa da Moeda Espanhola e, é através das suas histórias, dos seus motivos e do caminho traçado até ali que nos fazem torcer fervorosamente por eles e para que aquele assalto corra bem. Sem nada a perder, comprometem-se a ajudar El professor – a mente de todo aquele plano – a cometer o maior assalto de toda a história.
É uma série completa, uma série que nos faz vibrar, que nos leva a refletir e a perguntar qual o lado correto e o lado errado, pois vemos-nos no meio de todo um filme em que nada é tão certo como parece. Torcemos pelos ladrões e desprezamos alguns dos reféns – vá, mini spoiler, o Arturito é insuportável.
Não querendo entrar em grandes pormenores é uma série que tem de tudo um pouco, que critica certos pontos da sociedade, abordando temas atuais como, por exemplo, o bullying, faz uma alusão ao Síndrome de Estocolmo e quando damos por nós temos algumas ideias completamente trocadas. No entanto, é desta forma que nos sentimos também dentro da história.
As personagens principais estão escolhidas a dedo e à medida que vamos descobrindo e conhecendo mais um bocadinho sobre eles, ainda nos encantamos mais. É de referir que nunca corre tudo como planeado e, desta forma, conseguimos adorar e odiar determinada personagem na mesma medida, mesmo quando ela foge das regras ou põe em causa todo o plano.
Sendo assim, acabo por não conseguir escolher uma única personagem como a preferida, já que todos são essenciais, com características muito especiais e insubstituíveis. Temos a Nairóbi, que tem um crescimento notável de episódio para episódio; o Professor e a sua inteligência fora do normal, o cérebro de toda a operação (quem é que não tem uma crush por este homem?); O Denver e a sua gargalhada característica; a Tóquio e a sua rebeldia; o Rio que é um amorzinho e é visto como o elo mais fraco; o Moscou e a sua sabedoria; o Helsinque que apesar do tamanho torna-se a fofura em pessoa; o Berlim e a sua falta de empatia, mas que ainda assim nos faz gostar dele; e o Oslo, o mais calado, mas que vai também deixando a sua marca. Apesar de todas as diferenças, todos compõem a história e todos estão ali por um motivo, conforme foi dito logo no primeiro episódio.
Para além da equipa de assaltantes e o seu mentor, temos uma outra personagem importante, a inspetora Murillo, uma mulher no meio dos homens, que tem um papel fundamental em todo o decorrer da série, que mostra o poder de uma mulher e o quão corajosas podemos ser.
Aliás, temos ao longo dos episódios, várias situações em que as mulheres mostram a sua força e onde mostram ser voz ativa, não precisando da autorização ou apoio de um homem. O que acaba por ser uma certa crítica ao machismo que ainda se verifica nos dias de hoje.
É uma das melhores séries que vi, é diferente do habitual e é uma série que nos prende ao ecrã com uma intensidade fora dos limites, fazendo-nos sentir milhentas coisas, que nos assusta, que nos faz (quase) chorar, que nos cativa e que nos vai fazendo soltar umas gargalhadas. Intensidade não falta. E o final de cada episódio só nos leva a querer ver mais.
Mas se ainda não vos convenci, deixo-vos com estas palavras – muito certas – da review da nossa Andreia: “O meu coração esteve
constantemente em alvoroço. (...) Pela impulsividade. Pela desconfiança.
Pela loucura que se apoderou do grupo. Pelo sangue quente. Pela dor da
despedida. Pelo detalhe que leva tudo a desmoronar-se como um castelo de
cartas. Pelo perdão. Pelo risco vivido ao limite. E pela sensação inquietante
de sermos testados ao segundo. Esta família é extremamente disfuncional e algo
inconsequente, reunindo o melhor e o pior de cada um dos seus elementos.
Astutos e movidos por um forte sentido de honra, acabam por colocar em cheque
os verdadeiros valores da sociedade (...)” – como eu disse algures em cima, é muito mais do que um assalto.
Acho que se souberem conseguem trazer-nos uma temporada tão incrível como as anteriores, no entanto, confesso que também tenho algum receio, visto que não quero que estraguem aquela maravilha – o que acontece(u), infelizmente, em algumas séries quando se acrescentam temporadas. Acho que mais uns episódios são essenciais, mas espero que não alonguem demasiado. De qualquer das formas estou confiante que não nos vão desiludir e aguardo ansiosamente.
La Casa de Papel é uma série genial em todos os seus aspetos. Venha de lá a terceira temporada para voltarmos a vibrar com o Bella Ciao.





